“Os domingos precisam de feriados”


Gente, olha a pérola que recebi do amigo Sérgio Storch… vale a leitura – desde que seguida de uma pausa, para reflexão (aí sim, depois de ruminar e dar à introspecção um feriado, fique à vontade para comentar o que sentiu, ok?).

OS DOMINGOS PRECISAM DE FERIADOS
(Rabino Nilton Bonder)

Toda sexta-feira à noite começa o shabat para a tradição judaica.
Shabat é o conceito que propõe descanso ao final do ciclo semanal de
produção, inspirado no descanso divino, no sétimo dia da Criação.

Muito além de uma proposta trabalhista, entendemos a pausa como
fundamental para a saúde de tudo o que é vivo. A noite é pausa, o inverno é
pausa, mesmo a morte é pausa. Onde não há pausa, a vida lentamente se
extingue.

Para um mundo no qual funcionar 24 horas por dia parece não ser
suficiente, onde o meio ambiente e a terra imploram por uma folga, onde nós
mesmos não suportamos mais a falta de tempo, descansar se torna uma
necessidade do planeta.

Hoje, o tempo de ‘pausa’ é preenchido por diversão e alienação. Lazer
não é feito de descanso, mas de ocupações ‘para não nos ocuparmos’. A
própria palavra entretenimento indica o desejo de não parar. E a
incapacidade de parar é uma forma de depressão.

O mundo está deprimido e a indústria do entretenimento cresce nessas
condições. Nossas cidades se parecem cada vez mais com a Disneylândia.
Longas filas para aproveitar experiências pouco interativas. Fim de dia com
gosto de vazio. Um divertido que não é nem bom nem ruim. Dia pronto para ser
esquecido, não fossem as fotos e a memória de uma expectativa frustrada que
ninguém revela para não dar o gostinho ao próximo.

Entramos no milênio num mundo que é um grande shopping. A Internet e a
televisão não dormem. Não há mais insônia solitária; solitário é quem dorme.
As bolsas do Ocidente e do Oriente se revezam fazendo do ganhar e perder,
das informações e dos rumores, atividade incessante. A CNN inventou um tempo
linear que só pode parar no fim.

Mas as paradas estão por toda a caminhada e por todo o processo. Sem
acostamento, a vida parece fluir mais rápida e eficiente, mas ao custo
fóbico de uma paisagem que passa. O futuro é tão rápido que se confunde com
o presente. As montanhas estão com olheiras, os rios precisam de um bom
banho, as cidades de uma cochilada, o mar de umas férias, o domingo de um
feriado.

Nossos namorados querem ‘ficar’, trocando o ‘ser’ pelo ‘estar’. Saímos
da escravidão do século XIX para o leasing do século XXI – um dia seremos
nossos?

Quem tem tempo não é sério, quem não tem tempo é importante. Nunca
fizemos tanto e realizamos tão pouco. Nunca tantos fizeram tanto por tão
poucos.

Parar não é interromper. Muitas vezes continuar é que é uma
interrupção.

O dia de não trabalhar não é o dia de se distrair – literalmente, ficar
desatento. É um dia de atenção, de ser atencioso consigo e com sua vida. A
pergunta que as pessoas se fazem no descanso é ‘o que vamos fazer hoje?’ –
já marcada pela ansiedade. E sonhamos com uma longevidade de 120 anos,
quando não sabemos o que fazer numa tarde de Domingo.

Quem ganha tempo, por definição, perde. Quem mata tempo, fere-se
mortalmente. É este o grande ‘radical livre’ que envelhece nossa alegria – o
sonho de fazer do tempo uma mercadoria.

Em tempos de novo milênio, vamos resgatar coisas que são milenares. A
pausa é que traz a surpresa e não o que vem depois. A pausa é que dá sentido
à caminhada. A prática espiritual deste milênio será viver as pausas. Não
haverá maior sábio do que aquele que souber quando algo terminou e quando
algo vai começar.

Afinal, por que o Criador descansou? Talvez porque, mais difícil do que
iniciar um processo do nada, seja dá-lo como concluído.

Texto do Rabino Nilton Bonder, da Congregação Judaica

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